PUBLICIDADE

Topo

Quando números não afetam mais: falta consenso diante de 100 mil mortes

Bernardo Machado

07/08/2020 04h00

Sepultadores enterram vítimas de Covid-19 no cemitério Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Fonte: Lalo de Almeida/Folhapress

O Brasil se aproxima de 100 mil óbitos pela Covid-19. Se antes os números dominavam o debate político, estampavam manchetes das capas de jornais e se impunham nas redes, hoje eles ocupam outro estatuto – ainda presente, mas menos central.

O abalo causado pelos algarismos cedeu lugar a outras urgências (partidárias, econômicas e judiciais). Há quem sugira que estamos indiferentes às valas e ao risco do contágio. Proponho colocar o problema em outros termos: me parece que não conseguimos construir, nesses quase cinco meses, uma narrativa comum que dê significado às mortes, às recuperações e à pandemia. Os motivos são muitos.

Leia também:

Em primeiro lugar, sentimos o impacto da pandemia nas desigualdades existentes para, em seguida, naufragarmos numa pandemia das desigualdades. Começou com um vírus que se alastrava de maneira diversa no país – afetava inicialmente pessoas brancas em classes mais favorecidas para, em seguida, crescer entre pessoas negras e em situações de vulnerabilidade social.

Aos poucos, as desigualdades se ampliaram em termos etários, de classe, raça, gênero, região, até constatarmos que, enquanto algumas pessoas encaravam um grave desemprego, outras ampliavam as cifras dos bilhões. A listagem das estatísticas, entretanto, não contempla o estraçalhar das vidas. Os abismos e as "bolhas" tornaram as vivências incomensuráveis, contribuindo para que a dor alheia soe distante e pouco relevante.

Em segundo lugar, temos um aspecto biológico do próprio Sars-Cov-2. Enquanto algumas infecções virais têm sintomas muito similares – como caxumba e sarampo –, o vírus da Covid-19 se manifesta de modo distinto, a depender do corpo. Recentemente a Universidade King's College, de Londres, publicou estudo confirmando que pessoas experimentam uma grande variedade de sintomas – de uma simples gripe até uma doença fatal. Cada família acaba enfrentando realidades muito díspares da doença: há quem tenha a felicidade de notar poucas reações e quem precise se despedir da pessoa amada na fila da UTI. A pandemia, por suas próprias características, dificulta a construção de uma partilha comum.

Não dispomos, tampouco, de uma imagem-síntese capaz de impactar nossas sensibilidades. Recentemente Roberto Romano, professor e filósofo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), analisou: "No caso de uma pandemia, como essa que nós estamos vivendo, a vista não alcança o sofrimento de seres que estão distantes. A imagem do acidente, por exemplo, o caso das Torres Gêmeas, do carro da estrada, você encontra na sua vista uma visão sintética, (…) Você tem a condição de ver o acontecimento na sua totalidade. No caso da pandemia, você não enxerga 90 mil pessoas mortas, você vê uma a uma, ou a notícia de que houve 1 mil mortes e mais 1 mil mortes etc. Então, você não tem a visão de totalidade". Sem um elemento síntese, fica difícil constituir palavras comuns para elaborar o que socialmente enfrentamos.

Por fim, se já seria complexo constituir qualquer narrativa coletiva capaz de nos unir, a política certamente não contribuiu. Logo no início da pandemia, nossas autoridades públicas partidarizaram o vírus. Passamos a entender os procedimentos de prevenção, os remédios e as vacinas como sinônimos de uma posição política. Os fatos foram lidos não por sua veracidade ou falsidade, mas por sua eficácia ou ineficácia em defender uma ideia: um componente químico passou a ser patriótico ou antipatriótico, pró-Bolsonaro ou anti-Bolsonaro. Em nome de uma lealdade política prévia, houve quem tenha desconsiderado estudos científicos e protocolos sanitários. O acordo comum para o cuidado das vidas brasileiras não se realizou.

Sem um processo de elaboração de uma narrativa partilhada, ficamos à deriva com os números. É preciso cultivar um respeito ético às pessoas que morreram, às pessoas que perderam amores e às pessoas que, mesmo sobrevivendo, sofrem com a pandemia (seja pelo desemprego ou pela dificuldade de respirar). Algumas iniciativas da sociedade civil continuam contribuindo no esforço da partilha, como os coletivos Gabinete do Alemão (RJ) e Aglomerado da Serra (BH), a página-memorial para mortos pela Covid-19 no Facebook e a campanha Inumeráveis. Outras sugestões de rituais pipocam em comentários nas redes, como a entrega de flores nas portas de hospitais ou cemitérios, a leitura pública dos nomes das pessoas que faleceram nas últimas 24 horas e até pequenas passeatas com distanciamento físico.

Defender um discurso partilhado sobre o desastre sanitário que enfrentamos não pode servir para acomodar as desigualdades nacionais e as manter silenciadas. Mas a busca por um pacto republicano capaz de nos sensibilizar não deveria, ao meu ver, sair do horizonte.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.