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Bernardo Machado

Para Bolsonaro, "fatos antipatrióticos" na pandemia não merecem crédito

Bernardo Machado

03/04/2020 04h00

Imagem retirada do portal de Drauzio Varella

Enquanto cresce o número de pessoas infectadas pelo Sars-Cov-2 (nome científico do novo coronavírus), avolumam-se, igualmente, as notícias falsas a respeito do assunto. Desde o final de janeiro de 2020, o site do Ministério da Saúde desmente mensagens, áudios e imagens que aludem a tratamentos milagrosos, teorias conspiratórias e afins.

Nas últimas semanas, agências de verificação de fatos, como Lupa, e Truco, uma iniciativa da Agência Pública, diagnosticam o incremento "sem precedentes" de desinformações. Desde o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro no dia 24 de março, esse tipo de mensagem ganhou inédito patamar e colocou um desafio para o país: combater outro tipo de contágio, o da desinformação. Considero relevante reconstruir esse ambiente de difusão de informações falsas e compreender os efeitos delas no cenário político atual.

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O que é uma fake news?

No cotidiano, usamos o termo "fake news" de maneira difusa para nos referir a certos conteúdos e formatos de comunicação que circulam, sobretudo, nas redes sociais. Entretanto, para um debate qualificado, carece uma definição mais precisa sobre o assunto. De um lado, há pesquisas que descrevem como "fake" exclusivamente o conteúdo noticioso comprovadamente falso e, de outro, há quem estenda o significado para outras técnicas de desinformação – como os exageros, as omissões, as informações tiradas de contexto e as especulações.

Contudo, é possível notar ainda uma outra característica dessas notícias, conforme trabalhos de Pablo Ortellado e Marcio Moretto. Parcela significativa dos conteúdos compartilhados nessa estrutura tem o objetivo de oferecer uma "informação de combate" para uma disputa política particular e subsidiar uma posição previamente definida. No processo eleitoral de 2018, por exemplo, abundaram tais procedimentos.

Impacto do vírus

Quando a pandemia da covid-19 se materializou, houve quem tenha cogitado o esmorecimento das notícias falsas. "Esse seria um problema real que iria furar a bolha de desinformação", ponderou a antropóloga Letícia Cesarino, pesquisadora das redes de apoio a Bolsonaro desde 2018 e professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). As primeiras notícias falsas que circulavam no Brasil, ainda em janeiro e fevereiro, pipocavam dispersas e não convergiam para uma posição política evidente. Em março, entretanto, ocorreu uma certa inflexão no conteúdo dessas mensagens.

Quando o presidente Jair Bolsonaro criticou, em cadeia nacional, as posturas adotadas por outras autoridades, declarou também que o país deveria "voltar à normalidade" e apostou na eficácia da hidroxicloroquina como tratamento. A reação de seu grupo de apoiadores foi inicialmente inesperada, conforme conta o pesquisador David Nemer da Universidade da Virgínia (EUA): "Comecei a ver um certo silêncio. E o silêncio já é um sinal de discordância, principalmente nesses grupos que excluem as pessoas que fazem qualquer crítica. Mas nesse dia eu vi as pessoas dizendo: 'eu sou bolsonarista, mas isso eu não concordo'. Outras pessoas falaram 'isso está completamente errado, vai me desculpar'. Foi uma minoria, mas uma minoria num espaço em que a crítica não existe".

Na ocasião, por algumas breves horas, pareceu que o vírus teria minado o procedimento de desacreditar na ciência, na imprensa e noutras autoridades nacionais e mundiais. "As pessoas começaram a ver que o novo coronavírus não é igual 'kit gay' ou 'mamadeira de piroca'. Elas estão vendo que ele vai bater na porta delas", relatou Nemer.

A angústia econômica

A trégua foi breve. Logo em seguida, o presidente iniciou a campanha "O Brasil não vai parar". "Ele entendeu que ir pela avenida da economia seria mais promissor e convincente para as pessoas se agruparem novamente. E foi o que aconteceu", explica Nemer.

O argumento do trabalho tocou parcela significativa da população – houve quem tenha cogitado voltar ao comércio e houve quem tenha saído em carreata. Após o pronunciamento, Letícia Cesarino notou como, nos discursos nas redes sociais, as pessoas não cogitavam ser responsabilidade do Estado e dos governos garantir a renda para manter a população em casa. Os auxílios oferecidos pelo Estado eram encarados como esmolas. Desse modo, caberia ao indivíduo trabalhar para prosperar. Diante dessa gramática de compreensão, ficar em casa seria uma impossibilidade.

O temor pela economia de fato aglutinou parcela significativa da população e passou a antagonizar: ou a saúde ou o emprego. E em meio a essa nova fórmula em que todos os cenários são desastrosos, novos contágios simbólicos se consumaram.

O contágio das notícias

O conteúdo das notícias envolvendo o novo coronavírus assumiu outros contornos: além da aposta em uma cura iminente, começou a emergir a sugestão de números inflacionados de mortes e a proliferação mais vigorosa de histórias com complôs internacionais. De um lado, essas narrativas sintonizavam com o medo de parcela da população em perder sua renda. De outro, tais "informações" contribuíam para o combate travado pelo governo Bolsonaro e seus simpatizantes em produzir um inimigo e responsabilizar outros sujeitos por seus eventuais fracassos na esfera da saúde e da economia.

A teoria da conspiração do "vírus chinês", por exemplo, ganhou as redes. Além do caráter racista e xenofóbico intrínseco, na narrativa o Partido Comunista daquele país teria fabricado o vírus em laboratórios e inflacionado os dados de letalidade para obter uma vantagem competitiva econômica. Tais alusões não se sustentam cientificamente: "É um vírus que foi sequenciado e tem todas as marcas de evolução natural", explica Fernando Rossine, pesquisador da Universidade de Princeton (EUA). O biólogo está trabalhando em estratégias para otimizar a contenção da pandemia: "Se o vírus fosse fabricado, esperaríamos algo que não encontramos na natureza. Ele poderia, por exemplo, ser construído de partes de diferentes vírus. De qualquer forma, a ideia de um vírus construído é muito ingênua. Construir um vírus é uma coisa muito difícil."

Entretanto, parece pouco importar o conhecimento de um especialista, haja vista a vigorosa reação negativa que o biólogo Átila Iamarino enfrenta em seu perfil no Twitter. Isso porque parte desses grupos não busca a verificação de informações nos controles convencionais (os peritos, a imprensa profissional, as instituições do estado democrático de Direito). Nessas redes, a verdade depende de outros critérios de averiguação.

Imunidade ao contraditório

O que se percebe no atual cenário é um processo de partidarização da verdade. O principal efeito dessa prática não é necessariamente o fato de o público ser levado a acreditar em todas as histórias e fatos imaginários que transitam, mas sim em aprender que "fatos" podem ser lidos não por sua veracidade ou falsidade, mas por sua eficácia ou ineficácia, explica o antropólogo Alexei Yurchak num artigo. Um fato pode ser entendido como patriótico ou antipatriótico, pró-Bolsonaro ou anti-Bolsonaro. Isso significa que o lado da fronteira política em que o emissário se encontra é definidor para saber se o enunciado é verdadeiro ou falso, analisa Cesarino em texto.

Um dos objetivos das pessoas que elaboram essas "informações de combate" é apagar a fronteira entre fatos e falsificações e redirecionar as discussões para quais interesses as informações supostamente servem. Essa seria uma das manifestações que Rosana Pinheiro-Machado denominou de disputa pelos regimes de verdade.

Além disso, essas notícias se emaranham em relações de lealdade, explica Carlo Severi em artigo de 2018. Elas não são fake para algumas pessoas porque as informações que transportam são leais a uma causa. Isso evidencia a dificuldade em descartar tais falsidades. O ato de desmentir uma notícia falsa mobilizando dados científicos não faz a pessoa mudar sua posição, mas sim recorrer a outra notícia para proteger as lealdades e afetos já estabelecidos.

Nesse sentido, o que pode ocorrer após o mais recente pronunciamento de Jair Bolsonaro, em 31 de março? Se, em cadeia nacional, ele evitou o tom combativo costumeiro, na manhã do dia seguinte postou um vídeo em que alegava o desabastecimento no Ceasa de Minas Gerais – fato descartado por reportagem posterior. Desse modo, possivelmente presenciaremos a criação de uma nova narrativa interessada em produzir notícias combativas a favor do presidente e, assim, construir uma "verdade partidarizada" para servir aos interesses do atual governo.

Nos meses que se seguem, nossa experiência com a pandemia dirá mais sobre nós do que sobre as dimensões biológicas do vírus, como antecipou a antropóloga Denise Pimenta. Caberá a nós esmiuçarmos os mecanismos operados pelas autoridades públicas para se desincumbir da responsabilidade que o cargo lhes exige e, em paralelo, atuarmos como cidadãos e cidadãs de forma responsável perante o que estamos enfrentando.

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.