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Como Alvim começou lendo Kafka e terminou fechando com Goebbels

Bernardo Machado

18/01/2020 04h00

 

"A forma é o seu conteúdo", afirmou Roberto Alvim em 2010, num artigo assinado por ele para a revista especializada em teatro Sala Preta. Isso significa que a estética de uma peça de teatro, um filme ou um livro informa sobre o conteúdo da própria obra. As músicas escolhidas, o tom das falas, os gestos defendem uma ideia. Com uma peça publicitária não seria diferente. Na noite do dia 16 de janeiro, o então Secretário Especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro, apresentou seu plano para o Prêmio Nacional das Artes utilizando uma versão do discurso proferido por Joseph Goebbels – ministro da propaganda nazista de Hitler. Foi exonerado no dia seguinte após a repercussão negativa.

Muito se disse, nesse curto intervalo de tempo, sobre o caso. Quero aqui tratar um pouco da carreira pregressa de Alvim, de sua "conversão" de "esquerdista" para "direitista" e da estética de seu vídeo. Não se deve esquecer, Roberto Alvim é um diretor de teatro qualificado e um polemista. Ao longo de sua carreira, acumulou tanto prêmios por reconhecimento de seu trabalho quanto brigas com outros diretores de teatro e críticos/as de arte – como Gerald Thomas e Barbara Heliodora, conforme relata o perfil feito por Michel Laub na revista Piauí de 2014.

Leitor de Kafka

Roberto Alvim nasceu no Rio de Janeiro, em 1973, e estudou na escola de teatro Casa das Artes de Laranjeiras. Desde cedo trabalhou como diretor, montando e adaptando dramaturgos clássicos e contemporâneos para os palcos, além de atuar como diretor artístico do Teatro Carlos Gomes e do Teatro Ziembinski.

Sua vida tomou novos rumos após conhecer a atriz Juliana Galdino, em 2005. O diretor assistiu o trabalho da futura esposa numa peça de Antunes Filho em cartaz na capital fluminense. Nas palavras do diretor, ele declarou:

            "Nós não nos conhecíamos, mas tive uma epifania quando a vi em cena. Passei a ir a todas as sessões e procura-la no final. Ela me achava um louco. (…) Pouco tempo depois disso nos casamos, em todos os sentidos. E eu larguei tudo para vir morar em São Paulo, para que trabalhássemos e vivêssemos juntos." (Caderno da Revista da Folha em 07 de março de 2010)

Já na cidade da garoa, o casal fundou a companhia de teatro Club Noir, em 2007, num momento de crescimento dos grupos de pesquisa na cidade de São Paulo. De início, Alvim desejava trabalhar com dramaturgos contemporâneos, originais e inéditos no Brasil, como Richard Maxwell. O reconhecimento do trabalho veio rápido. Em 2008, o grupo recebeu R$ 200 mil de financiamento da prefeitura de São Paulo – pela lei de Fomento – e abriu uma sede de 300 metros quadrados na famosa rua Augusta. Desde então, estrearam muitas peças e realizaram diversas oficinas de dramaturgia e interpretação. Ficaram famosas encenações e adaptações das obras de Ésquilo, Franz Kafka, Harold Pinter e até Chico Buarque.

As peças do diretor tinham características marcantes: penumbra, movimentos minuciosamente calculados dos atores, ênfase nas palavras e textos fragmentados. Seus espetáculos eram repletos de referências eruditas: músicas de Schumann, Brahms e outros "clássicos" conviviam com ruídos e muitas passagens de silêncio. Uma parte da crítica gostava do apelo estético, considerando-o um renovador da cena teatral, outra parcela qualificava suas peças como herméticas e feitas para agradar poucos.

Em novembro de 2014, Roberto Alvim foi convidado a se definir para a revista Piauí:

"Como pessoa, sou péssimo como todo mundo. Sou narcisista, autocentrado. Se alguém disser que sou bonito, claro que gosto. Mas sei onde essa reação está localizada. Não é no mesmo lugar que as minhas reações a uma obra de arte. Por esta eu tenho um amor talvez patológico, que não sei explicar, porque não se explica o amor, e que me protege contra esta neurose."

Conversão
Durante anos teria mantido uma postura de "ateu convicto", até 2017. O diretor conta sobre um tumor que teria mudado sua forma de ver o mundo. Para a reportagem da Gazeta do Povo em julho de 2019, ele contou como superou esse momento. Em um dia em que estaria acamado, a babá de seu filho, que era evangélica, teria pedido para fazer uma oração. Convencido por sua esposa de que aquilo não seria um problema, a senhora teria colocado as mãos em sua cabeça e começado a orar.

            "E eu senti uma energia, uma luz. Eu levantei da cama, no dia seguinte fui para o hospital, o tumor tinha praticamente desaparecido. Foi um milagre". (Gazeta do Povo, 07/07/2019).

Desde então, o diretor passou a frequentar a Igreja Católica diariamente e declarou ter se tornado um "cristão convicto": "na minha vida hoje há a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo". Nos meses seguintes, ele teria permanecido em silêncio sobre suas novas práticas religiosas e políticas, por ter se tornado um fã de Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro.

Após a facada no então candidato, Alvim se pronunciou publicamente contra a agressão e recebeu uma reação negativa de colegas de profissão. Isso contribuiu para o afastamento da relação com seus pares mais antigos. Desde então, ele passou a defender uma narrativa de perseguição por parte de antigos amigos, colegas e membros da classe artística.

Com a eleição do atual presidente, o diretor fez questão de se aproximar das políticas do atual governo. O resultado veio logo, em meados de 2019, Alvim assumiu o cargo de diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte (Fundação Nacional das Artes), e parecia se encaminhar para se tornar um dos novos intelectuais do governo Bolsonaro. Até a postagem da campanha.

Referência a Goebbels

É preciso levar a sério a estética do vídeo. Na mencionada revista Sala Preta, o próprio Roberto Alvim explicou, ainda em 2010, a relevância desse aspecto em sua vida: "uma questão estética é sempre uma questão existencial". Por isso, nada no filme divulgado pela Secretaria Especial de Cultura foge a um rigoroso desenho.

Ao que tudo indica, o que causou sua exoneração foi o uso de uma citação de Joseph Goebbels. Contudo, ao meu ver outros aspectos devem ser discutidos.

Do ponto de vista musical, os violinos da ópera Lohengrin de Richard Wagner (uma das favoritas de Hitler) introduzem a cena austera e séria com Alvim sentado em uma cadeira preta atrás de uma imponente mesa de madeira. O  quadro com foto de Jair Bolsonaro com a faixa presidencial é indício da autoridade que orienta as palavras. Os sons da música são sutis e sugerem um momento de paz e tranquilidade. O discurso de Alvim realiza um diagnóstico (enviesado) da arte brasileira contemporânea, responsável por "destruir" a juventude. Até que, por volta do minuto 2'17'', quando ele começa a apresentar a "nova arte nacional", um novo conjunto de instrumentos invade a música de Wagner conduzindo quem ouve para o efeito de um engajamento afetivo. Ele diz:

"A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada".

Para além deste ser o trecho nazista vertido para o governo atual, nota-se como as emoções são fundamentais no processo político. O governo está interessado em disputar o que as pessoas sentem com as artes e, sobretudo, quais serão os referenciais de arte do futuro. Afinal, pessoas criam afeto por uma obra durante a infância e juventude, de modo a lembrarem dela com carinho, inclusive se tornando dispostas a defende-la. Num projeto de longo prazo, é possível imaginar que Roberto Alvim desejaria esse tipo de engajamento com as obras premiadas.

Além disso, o trecho realiza uma ameaça subliminar para as pessoas e obras que não se alinharem ao governo – "não será nada". Esse é um sinal bastante preocupante que não deve ser descartado. O ex-secretário sugere o "renascimento" de "uma nova arte nacional capaz de encarnar os anseios desta imensa maioria da população". Novamente, um membro do governo recorre ao argumento da maioria – um grupo social que, segundo se defende, não seria representado e precisaria de proteção estatal. Se, por um lado, o uso desse discurso da maioria é poderoso, ele é igualmente arriscado, ainda mais quando se trata de arte e cultura. Em um país continental e intrinsecamente diverso como o Brasil, as manifestações e compreensões do que seria "arte" não são unânimes.

Em seguida, no vídeo, uma voz feminina apresenta o prêmio de R$20 milhões para o "renascimento das artes". O professor Francisco Teixeira da UFRJ alertou para o caráter perigoso dessa premiação, justamente por seu potencial de estatizar a cultura brasileira. Considero esse prêmio ainda mais problemático haja vista o que ele pode produzir. No excerto já citado, Alvim defende: "A forma é o seu conteúdo". Assim, com o vídeo publicitário, ele produzia um conteúdo e estimulava a se candidatarem para a premiação obras com estéticas e conteúdos similares – portanto próximos do referencial do nazismo alemão.

Como resultado, a secretaria receberia inscrições de todo o país obtendo dados para mapear artistas e suas propostas culturais. Aquelas em sintonia com a estética e a ideologia do governo provavelmente receberiam uma premiação ou ficariam no radar da pasta. Aquelas distantes do referencial defendido – que não referendassem necessariamente os valores "da família", "da fé", "de Deus" e "da luta contra o mal" –, poderiam ser silenciadas – ou até perseguidas. No médio e longo prazo, caso esse prêmio siga as orientações dadas por Alvim, pode-se conduzir e orientar o país para uma estética que interessa a ideologia do governo atual. O prêmio não produziria um "panorama" da arte brasileira, como defendem, mas um mapeamento e um aliciamento de pessoas.

De qualquer forma, no minuto 6'20'' do vídeo, após a apresentação dos detalhes da premiação, a música de Wagner cresce em volume e em número de instrumentos quando o secretário declara o "Renascimento da arte e da cultura do Brasil". Alvim, como encenador experiente que é, calculou sua fala e ensaiou com o fim de obter uma "catarse" – um efeito grandioso de enlaçamento emotivo.

Provocação?

A arte produz a política e a política produz a arte. Ao que tudo indica, Roberto Alvim queria fabricar uma catarse para que a população se engajasse no "renascimento" de uma "arte" nacional, mas acabou gerando outra emoção, sua exoneração. Talvez ele tenha se entusiasmado em demasia nos símbolos nazistas e, por isso, expulso da secretaria. De qualquer forma, ele sinalizou quais são as orientações do atual governo para a cultura nos próximos anos. Para isso, é preciso atenção.

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.