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A política emotiva de Lula e Jair Bolsonaro

Bernardo Machado

27/11/2019 10h43

"Lulinha paz e amor" e Bolsonaro religioso. (Montagem/Getty Images)

Para fazer política, as pessoas produzem emoções. Vídeos com xingamentos, parlamentares às lágrimas, declarações vigorosas em palanques… O país está transbordando afetos e desafetos. Sobre isso, o senso comum e as teorias políticas sugerem que a política deveria ser o espaço de racionalidade, e não de sentimentalismos. Há quem defenda que o país viveria uma polarização afetiva nunca antes vista e que as paixões grupais teriam como resultado um "vazio de propostas políticas", a ser "preenchido por emoções transbordantes na forma de raiva, euforia e preconceitos". Outras pessoas sugerem que "Lula e Bolsonaro se utilizam da mesma dinâmica social destrutiva para se alavancar" e, como resultado, a política atual oscilaria entre "o medo e o ódio".

Acredito que essas impressões são pertinentes, mas discordo de dois aspectos: primeiro, a dicotomia entre emoção e política; e segundo, o suposto de que os procedimentos empregados são exatamente os mesmos.

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Ao longo da história, a retórica sensível foi capitaneada pelo Estado para obter espaços políticos. A emblemática propaganda "Brasil: ame-o ou deixe-o" dos anos 1970 não nos deixa mentir. Ali, o "amor" era um condicionante de cidadania, deixou de ser um sentimento extensivo (como se costuma pensar) e foi transformado em um critério de segregação.

Durante as décadas de 1990 e 2000, nas disputas nacionais, o PSDB até fez tentativas de recorrer ao afeto, mas a estratégia soava artificial. Já a retórica do medo circulou com rapidez no processo eleitoral de 2018 e serviu bem ao atual presidente, Jair Bolsonaro. Por sinal, ele é um agente político que se constituiu basilarmente nessa gramática.

Faz parte, portanto, da atividade profissional de políticos a gestão e a administração das emoções públicas. Aliás, nessa seara elas costumam ser mais mobilizadas por homens do que por mulheres (embora o senso comum geralmente associe sentimentos ao universo feminino). Caso elas o façam, são usualmente tachadas de "fracas" ou incapazes para o exercício da vida pública.

Quanto à segunda questão, também questiono a suposta simetria entre Bolsonaro e Lula, na medida em que induz a erros de percepção, como avalia Sergio Rodrigues. A antropóloga Rosana Pinheiro Machado chamou esse tipo de postura de "doisladismo", prática que eclipsaria algumas nuances fundamentais. Afinal, apesar de algumas similaridades, as emoções enunciadas pelos dois políticos são bastante distintas.

O atual presidente costuma oscilar entre dois recursos emotivos. De um lado, emprega a retórica do ódio para angariar aliados contra seus adversários  proposta arriscada, pois desagrada as sensibilidades sociais de alguns. De outro, mobiliza referenciais religiosos que despertam simpatia por um setor da população. A declaração "Deus acima de todos" evoca poder transcendente que procura unificar e universalizar seu público. No longo prazo, esse recurso pode levar a resultados pouco inclusivos, já que o chamado a Deus parte de um conjunto bastante específico de igrejas e ideologias. Entretanto, até o momento, a postura de Bolsonaro tem se mostrado bastante eficaz na manutenção de sua base de apoio e atingido alta capilaridade.

Já o ex-presidente Lula notabilizou-se pelo slogan "A esperança venceu o medo". A proposta era garantir a universalização das ações por um sentimento que prometia melhora em tom otimista. Outro recurso repetidamente acionado pelo Partido dos Trabalhadores foi o "amor" – como na expressão "Lulinha paz e amor" , mobilizado um argumento de alta inteligibilidade e transcendência que superaria oposições em nome de uma união nacional. Afinal, conforme sugere sociólogo Luc Boltanski, o "amor", tal qual a justiça, emerge como alternativa à violência e à guerra. O caso não é exclusivo de Lula; em outras ocasiões, o amor foi recurso para ação coletiva em manifestações no Brasil e nos EUA, um símbolo de valores acima de qualquer suspeita.

É possível, certamente, encontrar a expressão de outros sentimentos tanto em Bolsonaro quanto em Lula, mas procurei grifar aqueles que, a meu ver, foram decisivas nos processos de eleição para presidência e marcaram suas personalidades. É certo ainda que o ex-presidente, em suas últimas declarações, indica uma mudança de tom. Não estão definidas suas estratégias futuras, mas parece que o "Lulinha paz e amor" sairá do horizonte. Mesmo que encampe o debate pela "polarização", não me parece equivalente ao fomento do ódio ou da corrosão democrática, como alguns sugerem.

Notório, ainda, como as táticas estéticas dos adversários do PSL (partido do qual Bolsonaro era filiado até semana passada) e do PT também garantem o engajamento das pessoas. Os vídeos e publicações do presidente nas redes sociais se propõem a produzir uma aproximação afetiva com seu público: interação direta, frequência das postagens, fotos próprias com câmeras não profissionais, resposta a seguidores, autofilmagem… Já o ex-presidente Lula prefere o tom dos comícios: trato pessoal e ao vivo. Essas diferentes formas de comunicação interferem na recepção e no modo de realização afetiva e devem ser arenas de disputa nas próximas eleições.

Desse modo, enquanto algumas pessoas identificam os usos e abusos das emoções como um problema político, prefiro entender esses sentimentos como constitutivos do processo político. Ao invés de purificar o assunto e condenar quem usa as emoções no debate, prefiro atentar para a qualidade do que está sendo dito e avaliar o que essas emoções estão fazendo.

E para quem não é político?

Enquanto representantes ou candidatos/as recorrem aos afetos para, justamente, nos afetarem, seguimos em ebulição. Estamos em um momento em que, quando divergimos de alguém, desprezamos suas escolhas, partilhando de uma certa reciprocidade do desprezo.

Contudo, é preciso cautela. Desprezar a democracia e as instituições republicanas não é simetricamente correspondente a desprezar uma pessoa ou um partido em específico. Por sinal, enquanto para alguns o desprezo é desinibido – explícito, desavergonhado e manifestado com honra –, outros envergonham-se por reconhecer em si esse sentimento que contradiz a crença na igualdade entre os seres humanos, ao sinalizar hierarquia entre "desprezantes" e desprezados.

O incômodo, por sinal, embrenha-se em nosso cotidiano. No dia em que o ex-presidente Lula pôde sair da prisão após decisão do Supremo Tribunal Federal, diversas pessoas relataram dificuldade em processar os sentimentos despertados.

Estamos experimentando um momento em que nossos afetos soam contraditórios e complexos. O exercício cívico tem gerado ansiedades e frustrações exatamente porque as percepções oscilam, convivem e se embrenham. Devemos pensar como vamos gerir nossas emoções para produzir um jogo político sem falsas simetrias e um país com plena igualdade e verdadeira democracia.

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.