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Em entrevistas, Regina Duarte usa as próprias emoções para agir na política

Bernardo Machado

07/02/2020 04h00

Foto: Rogério Gomes/Brazil Photo Press/Folhapress

"Eu tinha muito medo", declarou Regina Duarte em 1983 para a Folha de São Paulo. Na entrevista, a atriz contava sobre sua breve passagem como estudante de jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da USP, em 1965. "Era um tempo de muitas reivindicações, uma coisa de transformação em toda a universidade. Mas o clima era conturbado, angustiante". Chama a atenção na fala a forma como, durante o processo de redemocratização, a artista expunha suas sensações pessoais sem mencionar o golpe ou a violência militar que agiram sobre ambiente universitário.

Ao longo de sua carreira, Regina Duarte vestiu dezenas de personagens e, simultaneamente, em entrevistas e declarações, destacou suas experiências emotivas como motivo para ações e decisões. O medo, por exemplo, esteve presente nesse caso que remonta a 1965, nas eleições presidenciais de 2002 e na demarcação de terras indígenas e quilombolas, em 2009.

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Regina Duarte é produto e produtora de seu contexto, agente e intérprete de uma série de significados que a extrapolam. Ao longo dos anos, ela construiu e desconstruiu sua figura pública de modo a caminhar no ambiente político que presenciava.

A política e a trajetória artística

A atriz começou a ser chamada de "namoradinha do Brasil" devido ao acúmulo de papéis em novelas como "Minha Doce Namorada" (1971). A qualificação traduzia um referencial melodramático já antigo da dramaturgia nacional: a ingênua, isto é, a jovem que cumpria, na trama, um papel de moça tímida, romântica, sonhadora e desejosa de casamento. Essa posição, entre angelical e inocente, constituía um referencial quase assexuado para as personagens.

Durante o regime militar, predominaram nas novelas esse tipo de heroína "boazinha" que não feriam as sensibilidades mais tradicionais. Em paralelo, a própria censura garantia que "imoralidades" não estampassem as telas. A figura da atriz Regina Duarte passou a se confundir com essa heroína que produzia um referencial conservador, como explica a antropóloga e professora da USP Heloísa Buarque de Almeida. A própria atriz contou, em entrevista para o caderno Ilustrada de 24 de abril de 1983, como teve uma "uma formação puritana" em sua casa. Havia, assim, uma sintonia fina entre os papéis dessa primeira fase de Regina Duarte e o período militar.

Contudo, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, novos ventos passavam a arejar a política nacional. O regime militar dava indícios de enfraquecimento e a Rede Globo parecia desejar construir uma outra imagem da emissora já não tão próxima do governo, como analisa Heloísa Buarque de Almeida em artigo de 2012 sobre o seriado "Malu Mulher". Segundo a antropóloga, "'Malu Mulher' fez parte de um movimento de transformação das construções simbólicas sobre a mulher na TV brasileira, uma vez que se desprende das 'heroínas' melodramáticas mais tradicionais para criar uma imagem de uma mulher mais 'moderna' e menos submissa". No programa, Malu era uma socióloga que agia segundo suas vontades e aspirações.

Nesse sentido, a posição de Regina Duarte sofreu um deslocamento e uma continuidade. Para Buarque de Almeida, a personagem Malu pôde tratar de temas polêmicos como divórcio, prazer feminino e legalização do aborto exatamente porque quem lhe dava corpo e voz era uma atriz que tinha prestigio social o suficiente, afinal, já havia personificado muitas vezes a figura de "boa moça". De um lado, a trajetória pregressa de Regina Duarte lhe autorizava a interpretar essa personagem controversa; de outro, a personagem indicava uma mudança na carreira da atriz haja vista que ela parecia se aproximar de outras referências e reivindicações feministas – equiparação salarial, divisão das tarefas domésticas e afins.

Já na época, entretanto, Regina Duarte oscilava entre concordar e discordar da personagem que interpretava em "Malu Mulher". Sobre a protagonista da série, ela disse ao O Estado de São Paulo, em 1984: "A Malu estava muito mais solta no mundo, era uma mulher completamente despreparada para viver e isso a levava a cometer radicalismos com muita frequência". Um ano depois, de volta à Globo, quando interpretou a viúva Porcina em "Roque Santeiro", declarou algo ligeiramente diferente sobre a época de Malu para Ricardo Kotscho jornalista da Folha: "Estou gostando muito desse trabalho. É uma coisa descompromissada, não me envolvo pessoalmente, como aconteceu nos últimos papéis, que eu endossava, era eu em cena".

De um lado, Regina Duarte sugere existir uma afinidade com Malu e, de outro, condenava a personagem por supostos "radicalismos". De toda forma, inclusive com a personagem de Viúva Porcina – uma mulher voluntariosa – a figura pública de Regina Duarte se modificou ligeiramente ao longo dos anos 1980. No processo de redemocratização, ela se apresenta com mais facetas quando comparada à imagem inicial de "namoradinha do Brasil".

Nas décadas seguintes, Regina Duarte passa a produzir um papel de mãe presente e muito dedicada à família, como comentou: "Ser dona-de-casa e mãe é uma coisa muito bonita e importante, que me deixa feliz e plena, tanto quanto o meu trabalho de atriz".  Conforme avalia Heloísa Buarque de Almeida, "ela volta a fazer muitas Helenas de Manoel Carlos, umas Helenas muito conservadoras, bem dramáticas".

Novamente a figura pública da atriz se desloca, agora cumprindo um papel de mãe – e posteriormente de avó – dedicada ao lar e à família. Em um período de retomada democrática e considerável estabilidade política, ela pôde gozar de tranquilidade para se alinhar a paradigmas mais tradicionais que marcaram o início de sua carreira. E, assim, interpretar mulheres com posições econômicas confortáveis cujos principais problemas residiam na vida privada.

Sentimentos políticos

Inicialmente, Regina Duarte não cogitava entrar na política. Ao menos foi o que disse em entrevista concedida em 30 de junho de 1985 ao jornal Folha de São Paulo. Na época, ela acreditava não levar jeito. Mesmo assim, a atriz se envolveu em diversas ocasiões com decisões políticas nacionais. Uma das mais conhecidas diz respeito ao início da campanha para o 2º turno das eleições presidenciais de 2002, quando declarou seus sentimentos: "Tô com medo. Faz tempo que eu não tinha esse sentimento. Temos dois candidatos. Um é o José Serra, eu o conheço. O outro eu achava que conhecia. Mas não o reconheço mais". A fala gerou uma reação bastante vigorosa na arena pública.

Passados 10 anos, a atriz concedeu entrevista para a jornalista Mônica Bergamo, também à Folha. Na ocasião, Regina Duarte recusou declarar seu voto e, sobre o caso de 2002, afirmou: "É melhor não relembrar. Não tem mais nada a ver com o que a gente tá vivendo". Na época ela elogiou o trabalho da então ministra da Cultura Marta Suplicy, ao criar os CEUs em São Paulo, e também fazia uma avaliação positiva sobre o governo de Dilma Rousseff: "Nossa, eu tenho encantamento por ela, desde o início, sabe? Na política internacional, me impressionou muito como ela enfrentou firme defendendo umas coisas legais. Tem uma frase dela de que eu gosto: o controle da mídia é o controle remoto. É uma postura democrática que tem que ser louvada. E dá uma coisa bacana, a gente fica orgulhosa de ter uma mulher ali".

Em pouco mais de dois anos, a atriz mudou de opinião e, em 2014, declarou apoio a Aécio Neves. Já em 2016, participou dos atos pró-impeachment de Dilma Rousseff e, na Avenida Paulista declarou: "Eu vim de graça, não tenho partido, meu partido é o Brasil, essa gente enganada". Um ano depois, em 2017, no ato pró-Lava Jato, ela voltou a retomar suas emoções para dizer: "Vocês são a razão do fim do meu medo".

Regina Duarte sentiu-se confortável, ao longo de toda a trajetória, em mobilizar suas emoções e impressões para justificar as escolhas políticas que tomava. Com essa retórica, ela parece desconsiderar sua posição de classe, racial e de celebridade que tanto lhe concedem benefícios e privilégios. Mesmo sem entrar formalmente para a política, até então, ao menos, ela jogava com sua trajetória e figura pública para apoiar causas em prol de suas visões políticas.

O novo casamento

Na campanha presidencial de 2018, Regina Duarte declarou apoio ao candidato Jair Bolsonaro e, após a sua vitória, disse: "Grata por essa luta pela ética, responsabilidade, patriotismo, transparência e liberdade. Vamos curtir um novo, lindo, digno e grandioso Brasil".

Passado pouco mais de um ano de governo, não parece banal que a antiga "namoradinha do Brasil" tenha adotado o vocabulário das relações românticas para explicar seu comprometimento político com o governo: "namoro", "noivado", "casamento". O campo semântico empregado realizou dois procedimentos: primeiro, acionou a história pregressa das personagens que ela interpretou e, segundo, tratou do assunto em termos caros para uma grande parcela da população que se sente representada pela gramática familiar e amorosa.

O governo realizou uma política astuta ao convidar a figura de Regina Duarte para a secretaria. Sua imagem e trajetória acionam referenciais tradicionais caros para parte das pessoas que elegeram o atual presidente. Além disso, é uma secretária da Cultura em sintonia com a forma de comunicação do atual governo, geralmente afeita a causar polêmicas, polarizações e paixões.

Resta saber como Regina Duarte produzirá sua imagem pública nos próximos anos e irá tomar decisões em uma posição de tamanha evidência e responsabilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.

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