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Bernardo Machado

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Os desafios das masculinidades em tempos de crise

Bernardo Machado

01/10/2019 12h06

Em celebração ao aniversário de 5 anos do UOL Tab, nesse mês de outubro, retomo uma matéria publicada em 9 de abril de 2018. O Crepúsculo do Macho identificava uma mudança na forma de exercer e praticar as masculinidades no Brasil contemporâneo. Ali, lemos tanto sobre as taxas de homicídio, os números de feminicídios provocados por homens e as angústias que a virilidade impõe a jovens e adultos.

Nessa mesma trilha, há pouco mais de um mês, a equipe do Papo de Homem lançou um documentário denominado O Silêncio dos Homens, fruto de uma pesquisa com mais de 40 mil pessoas no país. O resultado, coordenado por Ismael dos Anjos, apresenta um conjunto de relatos sensíveis e de propostas inspiradoras para repensar os repertórios de afeto da masculinidade.

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De lá para cá, o debate a respeito do tema expandiu seu universo e gerou controvérsias. Houve quem discordasse dos rumos sociais indicados pela matéria e defendeu antigos valores da esfera masculina – o controle, a força, a violência e a distância dos universos feminino e LGBTI+. Dentro dessa lógica, a virilidade deveria ser refundada e os homens precisariam se provar másculos com base em conquistas simbólicas, econômicas, sexuais e políticas, para citar algumas.

Há, portanto, certa crise na forma de conceber o que seria masculino. Se já houve a imaginação de algum consenso (sempre inexistente), hoje está em pauta a disputa pelos significados desses referenciais. Neste texto, exploro três (dos muitos) aspectos e elaboro algumas perguntas para pensarmos sobre esse tema tão complexo e delicado.

Desafio da diversidade

Em primeiro lugar, masculinidade não é sinônimo de homem. Trata-se antes de um referencial cultural – construído historicamente – que classifica e posiciona o mundo em relação ao que se entende por masculino e por feminino. Pode-se classificar, por exemplo, um objeto, uma emoção ou uma ação como masculina ou como feminina, sem que isso esteja diretamente relacionado com a anatomia física das pessoas.

Isso explica três elementos. Primeiro, uma pessoa pode ser considerada masculina, ou não, independentemente de sua genitália. Por isso, alguns homens se sentem obrigados a provar, para os outros, sua prática viril – nascer com um pênis não te qualificaria automaticamente como masculino. Segundo, não há uma única forma de masculinidade, ela varia com a idade, a raça, a classe social, a sexualidade, a região, a religião e a nacionalidade. É melhor que passemos a pensar em masculinidades – no plural. As análises de Tulio Custodio, por exemplo, têm sido fundamentais no processo de sensibilização social para os dilemas enfrentados por homens negros. Para estes, a masculinidade violenta já é presumida sobre seus corpos e pode levar (como muitas vezes o faz) ao seu extermínio. Terceiro, as referências de masculinidade dependem de contextos e disputas, por isso podem ser alteradas.

Uma prática comum entre nós diz respeito a desconsiderar essas diversas experiências de masculinidade e assumir existir uma única forma de apresentação masculina – que passa necessariamente por colonizar e agredir. Lidamos, portanto, com um paradoxo. De um lado, é possível identificar  cobranças comuns que atravessam diferentes grupos sociais: a compulsoriedade da força, a competição e a prontidão sexual estão presentes nos lares independentemente da raça, da classe, da região… De outro lado, cada posição social experimenta essas exigências de modo distinto. Rapazes negros e não-negros costumam sofrer consequências muito divergentes frente a eventual demonstração de força; homens gays enfrentam a sexualidade em termos singulares se comparados aos heterossexuais; e a competição econômica leva a resultados discrepantes entre adultos da classe trabalhadora e das elites nacionais.

O primeiro desafio corresponde a reconhecer a diversidade que já está entre nós. Vale perguntar: como lidamos com essa multiplicidade? Quais expressões masculinas são valorizadas e quais menosprezadas?

Desafio afetivo

Em segundo lugar, é urgente tratar da esfera dos sentimentos. Especificamente, nos relacionamentos heterossexuais entre pessoas cis, homens e mulheres rotineiramente reclamam uns dos outros, como conta Mirian Goldenberg. Enquanto elas consideram investir mais do que eles no afeto, eles sentem-se demasiadamente cobrados. Para pensar no assunto, é necessário discutir os próprios pressupostos de gênero que informam o que seria "amor". Em um estudo conduzido por Francesca Cancian, 130 adultas e adultos de diversas classes sociais e origens étnicas responderam à pergunta: o que é uma boa relação amorosa? A maior parte das respostas – dadas por homens e por mulheres – afirmava que uma boa relação envolvia honestidade, comunicação, carinho, apoio, tolerância e compreensão. Nada muito diferente do repertório do que se entende por amor hoje, em 2019. Como essas características não costumam ser associadas (ou ensinadas) aos homens, concluiu-se disso que o próprio conceito de amor socialmente partilhado é feminino.

Assim, os homens podem considerar que uma prática de tolerância ou de carinho, por exemplo, os emascula. O estilo de demonstrar amor deles privilegiaria, geralmente, as ajudas práticas, o compartilhamento de atividades físicas e o sexo; dessa forma, eles preservariam sua virilidade. Tal postura está em acordo com a normativa na qual cabe ao homem ser o responsável por prover as condições materiais. Essa ajuda prática e as atividades físicas são percebidas como maneiras de expressão dos sentimentos. Enquanto eles percebem suas ações instrumentais como maneiras de afeto, as mulheres não veem esses atos da mesma forma. Como resultado, casais heterossexuais esbarram, muitas vezes, nessa forma quase incompatível de conceber as relações e as trocas.

Mas ainda assim é preciso atentar para a diversidade. A pesquisa realizada por Cancian ressalva que, dentro da classe trabalhadora, as mulheres concordavam com os homens: o trabalho é uma forma de demonstrar amor por sua família. Por isso, elas não questionavam as manifestações de afeto dos maridos. Esse elemento indica que as próprias noções de amor e de masculinidade não são universais e devem ser objeto de reflexão.

Tratar das masculinidades corresponde a refletir sobre esses empecilhos e limites que os repertórios impõem. Esse é segundo desafio da masculinidade contemporânea: como lidar com uma forma de afeto encarada como feminina? É possível transformar a masculinidade para que ela possa se expressar sem ser considerada fraca? Ou o caminho seria expandir o que entendemos como sensibilidade de forma a reconhecer algumas das formas masculinas de afeto? Como essas demonstrações afetivas esbarram em práticas de agressão? A antropóloga Isabela Venturoza trabalha justamente com os ideais masculinos que reforçam paradigmas agressivos de relacionamentos heterossexuais.

Desafio político

O terceiro problema a ser enfrentado recai sobre as consequências políticas. O ideal de masculinidade que prevê a conquista através da violência, do controle ou da hegemonia entra em conflito com a própria democracia. Dentre os requisitos para um sistema político ser considerado democrático está o reconhecimento de outras pessoas como cidadãs e cidadãos que têm direitos e podem competir, livremente, para ocupar espaços dentro do Estado.

A masculinidade que costuma ouvir exclusivamente o enunciado de outros homens iguais a si, nega as demandas de mulheres, de pessoas negras e da população LGBTI+. Esse processo – que prefere a própria voz ou a voz de seus iguais – inviabiliza o elemento fundamental para a democracia: a necessidade de negociar e reconhecer as outras pessoas. Se, para ser considerado viril, um homem depende de ter a última palavra, ou falar mais alto que todos os outros, então temos um problema grave para o desenvolvimento democrático efetivo.

O que virá?

Caso se efetivem a mudanças dos referenciais de masculinidade e se instaurem formas mais plurais de existência – que reconheçam os sentimentos dos homens – é preciso atenção para que essa postura não se transforme numa nova forma de exercer o poder. A transformação pode ser capturada e usada para reinstaurar um modelo – menos evidente – de assimetrias sociais. Uma masculinidade aberta e comunicativa pode se tornar tão valiosa que desvalorizará repertórios femininos? Como escapar dessa lógica?

Além disso, se encararmos o processo como um aspecto individual e não mudemos formas estruturais de representação, posições de classe, gênero, raça e sexualidade, incorreremos numa atualização de relações de poder perversas. Dessa forma, considero pertinente encerrar com uma pergunta: como fazer para que novas práticas de masculinidade não produzam novas lógicas de poder?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.