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Bernardo Machado

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Presenciar a queda do céu

Bernardo Machado

20/08/2019 13h45

Fogo em floresta de Apuí, no sul do Amazonas, cidade com o maior número de focos do fogo no estado neste ano. Imagem: Bruno Kelly – 31.jul.2017/Reuters

A sombria fumaça estica seus braços gananciosos pelo país. Seu lento e persistente espreguiçar espalha cinzas no céu. Ontem, dia 19 de agosto, a cidade de São Paulo testemunhou o apagar gradual da luz enquanto nuvens, tingidas de marrom, inviabilizavam o horizonte. Houve quem notou o esvair paulatino, houve quem não se deu conta.

O fenômeno tem origem nas queimadas que se alastram pela América do Sul desde a Amazônia, o sul da Bolívia e o Paraguai. Só neste ano, o número de focos de queimadas cresceu 70% na comparação com o mesmo período de 2018. Segundo os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o bioma mais afetado é justamente o da Amazônia, correspondendo a 51,9% dos casos. No início de agosto, o governo do estado do Amazonas decretou situação de emergência. O Acre fez o mesmo após constatar 1.257 focos de incêndio desde janeiro.

"Quero alertar os brancos antes que acabem arrancando do solo até as raízes do céu", profetizou Davi Kopenawa. Ele é um dos principais líderes indígenas vivos, um xamã e um porta-voz Yanomami. Seu aviso, publicado originalmente em 2010 no livro "A Queda do Céu" – em parceria com o antropólogo Bruce Albert – e traduzido em 2015, ecoa entre as cinzas espalhadas. O diagnóstico, se não era óbvio, se fez sombrio.

Enquanto as chamas severas impedem nosso olhar e a espessura da fumaça pesa nos pulmões, Kopenawa protesta: "os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferentes deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obtuso. Não conseguem se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte". O diagnóstico revela como muramos nossos olhos, entulhamos nossos ouvidos e vedamos nossos poros. A teimosia colonial aposta no progresso pela destruição.

Davi, desde que passou a viajar para defender a floresta, aprendeu a "conhecer um pouco o que eles [os brancos] chamam de política (…) Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras". Kopenawa insiste no alerta: "Quando acham que sua terra está ficando doente, os brancos falam de poluição (…) Essas palavras vêm do que os habitantes das cidades chamam de natureza. Contudo, eles não lhes dão a menor importância. Seus ouvidos continuam tampados e seu pensamento, esfumaçado".

A riqueza criada a custa de genocídio é assalto, declara o líder indígena Ailton Krenak. Em 1980, esse importante ator político esteve ativamente envolvido na elaboração da Constituição Federal em 1988. Seu ensinamento é certeiro: "o povo indígena já está calejado com a falta de coerência do projeto colonial brasileiro que não consegue nem dizer a que veio. Não diz se quer fundar uma nação ou se quer simplesmente abrir um garimpo". Além de evidenciar um dilema mal resolvido na formação do país, Krenak avisa: "aquele solo que sustenta aquela floresta frondosa da Amazônia, se você tirar a vegetação, aquilo vira deserto". Essa mesma mata, longe de ser "intocada", foi cultivada durante centenas de anos. A ação de povos pré-colombianos transformou boa parte da região amazônica em gigantescos "pomares" repletos de espécies de árvores "domesticadas". Incinerar seu verde é ignorar a história do complexo e refinado cultivo ali desenvolvido.

Ao invés de ouvir os saberes dos povos tradicionais, prefere-se ignorar ou, ainda exterminar. No final de julho, o líder Emyra Waiãpi foi encontrado morto após uma invasão de garimpeiros no oeste do Amapá. O laudo preliminar apresentado pela Polícia Federal sugere um afogamento como causa da morte, mas o grupo ameríndio e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados contestam. Enquanto isso, o discurso por uma nova colonização do modo de vida indígenas se alastra. São falas que encorajam a destituição dos territórios duramente reconquistados, negam verbas para preservação e acenam com mais fogo.

Insistimos em recusar os saberes ancestrais de Yanomamis, Krenaks, Waiãpis e outros. Nos contentamos com a esperança de um futuro ungido pelas labaredas do progresso. Segundo a experiência de Davi, essa nossa segurança é fruto de um horizonte afunilado: "Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mesmos. Seu pensamento permanece obstruído (…)". Aos poucos – ao revés do alerta e no silêncio de nosso sono –, as cinzas inauguram um novo rio nos céus. Quando essa correnteza desaguar, seremos feitos cinza e pó, como já avisava a profecia dos xamãs.

Imagem de satélite da Nasa mostra o corredor de fumaça da Amazônia sobre a América do Sul na segunda-feira (19/08/19)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.