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Bernardo Machado

Bernardo Machado

A LGBTIfobia que nos acomete

Bernardo Machado

2025-06-20T19:17:56

25/06/2019 17h56

Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil / Estadão Conteúdo

No dia 13 de junho, o Supremo Tribunal Federal concluiu que o Congresso tem sido omisso em criar uma normativa para tratar de práticas discriminatórias contra a população LGBTI+. Ministros/as também estipularam que, enquanto não houver lei, o Estado irá equiparar práticas LGBTIfóbicas ao crime de racismo. Dez dias depois, ocorreu a 23ª Parada LGBT de São Paulo, a maior do mundo, com cerca de três milhões de participantes. Tanto o julgamento quanto o evento na Avenida Paulista jogaram luz às violências cometidas contra as pessoas por sua sexualidade ou identidade de gênero e colocaram em pauta o termo LGBTIfobia. Me proponho a discutir justamente a segunda metade que compõe essa palavra: a fobia – o medo.

Sentimento ardiloso que nos paralisa e, por vezes, move de forma violenta e perversa, a fobia acomete as pessoas por canais imprevistos. Há quem sinta o ar abandonar os pulmões quando nota as portas se fecharem – a claustrofobia. Outras desmaiam na vertigem da altura – a acrofobia. E tem quem grite, chore e sue no mesmo cômodo de uma aranha – a aracnofobia. Em comum, essas manifestações transformam a pessoa, deixam-na descontrolada, querendo fugir. Quem está tomado por esse tipo de emoção não consegue fazer mais nada, permanece em paralisia e estado de angústia.

A LGBTIfobia não age da mesma forma, não causa fuga descontrolada, suor ou tremedeira. Pelo contrário, gera desvio do olhar ou bufar impetuoso. Ela motiva resmungo, xingamento, quem sabe piada. Em nome dela, agride-se fisicamente, assedia-se ou até extermina. Poderia ser dito que ela não é uma fobia. Mesmo assim, ouso dizer, expressa um conjunto de medos de raiz menos evidente.

Existe uma interconexão entre a LGBTIfobia e uma espécie de paranoia. Algumas pessoas heterossexuais e cis (aquelas cuja identidade de gênero está de acordo com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer) se preocupam em erguer diferenças e barreiras em relação a pessoas não-heterossexuais e trans. Para isso, guardam o zelo em se manifestar em termos masculinos e femininos "adequados" ou "ideais" – que variam conforme a região (urbana ou rural), a idade, a classe social, a ascendência racial, a religião e afins. Caso haja "inconformidade" com a projeto de mulher e homem imaginado, corre-se o risco de deixar de ser "homem", "mulher" e até "pessoa". E do perigo germina o medo.

Logo cedo, o temor invade expectativas e sonhos. Os futuros pais – ainda durante a gestação – perguntam-se: "e se a filha for lésbica? Ou o filho gay? Ou ainda nascer uma criança trans?" Para contornar a possível catástrofe, evita-se qualquer brinquedo "trocado", qualquer menção ao universo LGBTI+. As referências "pertinentes" protegeriam do destino indesejado e aflitivo. A brincadeira em que a criança se veste de pai ou de mãe pode causar orgulho, assim como pode promover espancamentos, a depender de quem se adorna com a gravata ou com o batom. O menino será repreendido quando dançar e a menina precisará evitar ser muito "moleque". Desde cedo, a família se empenha para evitar a manifestação da não-conformidade de gênero. Se as mães podem esbanjar no afeto, os pais precisam de parcimônia, caso exagerem com os filhos o resultado pode ser um jovem efeminado e "frouxo".

Mas o temor não cessa nos primeiros anos, irá resmungar dúvidas nas cabeças da juventude em crescimento. O que havia de inocente ou desconhecido na infância, se transforma, durante a adolescência, em cálculo minucioso: as pessoas vigiam seus gestos, o tom da voz, as músicas que ouvem e outros minúsculos detalhes. É preciso conter exageros ou ausências, caso contrário, chovem acusações, piadas, golpes, desprezo e dúvida sobre quem se é. Para ser heterossexual é decisivo manter a vigilância. E se pune quem se manifesta de modo vivo:  a menina travessa pode "merecer" ser abusada para "aprender a ser mulher" e o menino que gosta de cantar pode ser abusado porque "está pedindo".

A fobia ainda atingirá também os corpos e a saúde. Há partes da anatomia que seriam heterossexuais e outras específicas para a população LGBTI+? O ânus masculino – esse órgão controverso – não poderia ser limpo com frequência ou empenho, afinal, a mera aproximação causaria o temor de comprometer o desejo por mulheres. Apesar de o câncer de próstata ostentar, entre os homens, a segunda maior incidência dessa doença (atrás do tumor de pele não melanoma), o exame na região é, ainda, um tabu. Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer, em 2018, serão 68.220 novos casos diagnosticados. Estudiosos da área da saúde salientam que alguns homens encaram a própria doença como um sinal de fragilidade e, por isso, desmerecem exames, médicos e práticas de cuidado, ainda mais quando o tumor está alocado em uma região – a próstata – que sequer mereceria atenção.

Para pavimentar a heterossexualidade ainda será preciso gerenciar as emoções e as formas de afeto. O excesso ou a ausência de gestos podem comprometer a sexualidade de homens e mulheres. A jovem adulta que não chora é normal? A outra que não mantém relações com rapazes seria demasiadamente masculina? Quando o rapaz heterossexual pode chorar? A morte de um familiar e a desclassificação do time de futebol parecem não afetar sua moral. Mas os limites são tênues e levam rapazes a andar em um campo minado e escorregadio. Qualquer pequeno deslize é uma falha. A certa altura, os canais lacrimais já estão devidamente enferrujados e o choro, quando emerge, é amargo e envergonhado.

O ator Laurence Fishburne, na série "Crying Men", de Sam Taylor-Wood.

E quando se constata que, de fato, a criança é LGBTI+? Irrompem perguntas repletas de incertezas: o que o resto da família vai pensar? E a vizinhança? Quem dará continuidade ao sobrenome? Terei netos? Será espancada? Onde eu errei? Com o temor, os carinhos são interrompidos e aquele gesto íntimo se perde na lama das inseguranças. Não se ouve mais as palavras de conforto por conta dos gritos, xingamentos e ameaças. Em algumas ocasiões, as mãos dos pais irão arder a cada golpe no corpo daquele/a que um dia colocou no colo. A fobia faz filhas e filhos morrerem.

Mas o medo ainda se alastra. As/os filhas/os de pessoas LGBTI+ temem por seus/suas pais/mães. E temem por si. Como lidar com o dia dos pais e o dia das mães? Pode levar a família no colégio? Os parentes da melhor amiga permitirão que ela vá em casa com duas mães? Ou com um pai trans?

Tal qual peste, o temor que ronda a existência LGBTI+ espalha seus tentáculos por toda população. Enquanto a menina lésbica transpira para beijar a namorada, sua mãe sente o peito apertado e o vizinho vira o rosto. Enquanto a pessoa bissexual ouve que ainda não se decidiu, seu colega de trabalho se pergunta (muitas vezes) se vale ir ao urologista verificar o desconforto na próstata. Enquanto a jovem transexual vê seu sangue escorrer pela calçada após um soco repentino e raivoso, seu pai teme que a notícia chegue às capas de jornais. Viver com medo nos impede de respirar.

Mas, ao fim, há uma singularidade no temor que envolve pessoas LGBTI+. No caso da claustrofobia ou da aracnofobia, o medroso quer fugir e desaparecer, já no caso da LGBTIfobia, impera um desejo de extermínio – seja do outro, seja do que seria LGBTI+ em si. Há uma vontade de eliminar o diferente ou eliminar o que há de "inadequado" em sua própria vida. Uma sociedade com medo é uma sociedade carente de relações, fraca de diálogo e escassa de afeto, afinal, o temor nos interrompe. Para enfrentar o medo é preciso garantir o encontro, o diálogo e a abertura para outros modos de viver.

Cartaz das Mães Pela Diversidade na 23ª Parada LGBT de São Paulo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.