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Bernardo Machado

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O Brasil e seus messias

Bernardo Machado

28/05/2019 11h25

De tempos em tempos, emergem no Brasil discursos que celebram a chegada de um líder capaz de conduzir a população para a salvação religiosa. O messias, como costuma ser denominado, seria imbuído do poder divino: ele unificaria povos e solucionaria problemas. Desde 2018, cresceu a correlação entre um homem em particular – o novo presidente da República, Jair Bolsonaro – e a trajetória escatológica (profecias que versam sobre o destino final da humanidade).  Igrejas e pastores que apoiaram a vitória presidencial sugeriram ser ela manifestação da vontade do deus cristão. De igual maneira, ministros do governo defenderam as ações governamentais recorrendo ao referencial cristão. No ato de domingo, 26/05, um sacerdote afirmou que o ex-parlamentar havia sido "escolhido por Deus": "o que ficou determinado, claramente, após ele conseguir sobreviver ao atentado feito pelos inimigos da esquerda, comunistas, socialistas, o mal, a paralisia, o atraso".

O país acumula, contudo, mais de um messias em sua história. Coloquei-me o desafio de tratar – brevemente – dessas múltiplas manifestações de fé. O cenário é complexo, repleto de divergências e complexas disputas, mas nos permite identificar alguns aspectos comuns.

De início, é preciso dizer que, no intervalo de pouco mais de um século – entre 1820 e o 1960 –, a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz contabilizou a existência de nove movimentos messiânicos no território nacional. Segundo a pesquisadora, o messianismo diz respeito à crença de um salvador – o próprio Deus ou seu emissário – capaz de por fim à ordem presente entendida como perversa e opressiva e, em seguida, inaugurar um novo período de justiça e virtude. Nesse sentido, os movimentos messiânicos que se constituíram no país procuraram concretizar o que imaginavam ser essa nova ordem sob a condução de um líder de virtudes carismáticas. Três são os movimentos mais famosos na virada do século XIX para o XX tratados pelo também sociólogo Duglas Teixeira Monteiro: 1) Juazeiro do Padre Cícero (1872-1934), 2) Canudos de Antônio Conselheiro (1893-1897) e o 3) Contestado dos monges João e José Maria (1912-1916). Vamos a eles.

1) Padre Cícero nasceu em 1844, na cidade do Crato. Em 1872, uma revelação marcou sua trajetória. Na ocasião, o eclesiástico foi a Juazeiro para prestar serviços religiosos. Durante uma soneca, teria tido um sonho no qual trezes homens – Cristo e seus apóstolos – entraram no recinto em que dormia e se sentaram ao redor da mesa. Em seguida, um conjunto de pessoas miseráveis ingressariam na sala e Cristo, dirigindo-se a elas, lamentaria as ofensas que vinham sendo vítima e prometeria um último esforço para salvar o mundo. Olhando para Cícero, lhe incumbiu da tarefa: "cuide deles".

Padre Cícero, em 1913, pouco depois de virar prefeito de Juazeiro do Norte.

Desse momento em diante, o padre iniciou seu pastorado em Juazeiro. Conforme se conta, em um dia de pregação, no momento de bênção, a hóstia dada por Padre Cícero a uma beata se transformara em sangue de Cristo. O chamado "milagre da hóstia" foi estopim de uma controvérsia que chamou a atenção do Bispo do Ceará. Um inquérito foi aberto para descartar – ou confirmar – como milagres os feitos do potencial messias. Para uma parcela das pessoas crentes que circundavam o novo líder, a República e suas leis, que havia estabelecido uma separação constitucional entre Igreja e Estado, representava o próprio Anticristo. A investigação se encerrou após a morte do beato, em 1934.  E, somente em 2015, o Vaticano atendeu a um pedido para reconciliar Cícero com a Igreja Católica.

2) Não muito longe dali – em Quixeramobim, Ceará –, nasceu Antônio Vicente Mendes Maciel em 1828. O pai, um comerciante, queria fazer do filho um padre, por isso, o pôs em cursos de português, latim e francês. Com a morte do patriarca, em 1855, o rapaz assumiu os negócios e as dívidas familiares. Em poucos anos, os credores passam a lhe acionar judicialmente e, como resultado, Antônio decidiu mudar de vida: tornou-se um beato itinerante pelos estados nordestinos. Levando uma vida ascética, ele construía e reconstruía igrejas, erguia muros de cemitérios e pregava para as pessoas nas ruas. Já nessa época, suas atitudes eram colocadas em contraste com as condutas de muitos padres da Igreja Católica e desagradavam clérigos.

Monumento em homenagem a Antonio Conselheiro

Antônio também considerava a República como um "grande mal para o Brasil", a "opressora da Igreja e dos fiéis". O reiterado uso de palavras como "tirania" e "tirano" nos textos qualificava qualquer autoridade do Estado como ilegítima porque não originada de Deus. A própria figura do Presidente era, nesses termos, contestada e colocada sob dúvida.

Em 1893, ocorreu a fixação na comunidade Belo Monte – ou Canudos. Pessoas de vários estados passaram a afluir para o arraial em busca do conhecido beato. Na época, o jornalista e escritor Euclides da Cunha, que esteve no povoado, contou 5.200 casas e uma população que flutuava entre 20 e 30 mil habitantes. O Estado, incomodado, iniciou um conjunto de investidas para desfazer o projeto e, após 4 fracassadas empreitadas, em 1897, a Expedição exterminou a cidadela e matou todos os seus defensores.

3) Já ao sul do país, o atual território que abrange a fronteira entre o Paraná e Santa Catarina foi alvo de disputa entre essas unidades federativas após a proclamação da República. Em meio à instabilidade política e aos desmandos coronelistas, em 1892, um grupo de franciscanos alemães instalou-se em Lajes com o objetivo de combater o que consideravam uma ameaça ao catolicismo: a "ignorância" religiosa dos sertanejos e as forças "satânicas" da maçonaria. Os monges João Maria e José Maria lideraram um ajuntamento messiânico nesse contexto.

Foto de João Maria.

A concentração começou nas celebrações do Bom Jesus, em agosto. Após os festejos, os fiéis decidiram ficar nas margens do rio Taquaruçu. Os dias preenchiam-se por rezas e leituras feitas por José Maria. Aos poucos, participantes começaram a se organizar e definir os rumos daquele conjunto de pessoas. O descontentamento com a República e o desejo de retorno da monarquia eram comuns. Duglas Teixeira Monteiro salienta que essa Monarquia aspirada realizaria o reino escatológico e seria uma "nova ordem que resultaria da união entre combatentes terrestres e o exército encantado de São Sebastião". Entre 1913 e 1914, Tuquaruçu foi atacada e, na última ocasião, restou arrasada após o extermínio de boa parte da população. Quem sobreviveu se refugiou em Caruaguatá para, em fins de 1915, ver o movimento liquidado pelo Estado.

Vale notar como nessas três ocasiões históricas, os messias sertanejos se envolveram em lutas políticas com aliados de mandatários locais em disputa com outros grupos detentores de poder regional e nacional. Mas se essas manifestações parecem distantes no tempo, o sociólogo Lísias Nogueira Negrão analisa movimentos messiânicos já no século XX. Nos anos 1940, por exemplo, o Brasil viu surgir a Fraternidade Eclética Espiritualista Universal liderada por Yokaanam. O líder nasceu em uma família com recursos e trabalhou como piloto de aviação comercial e na aeronáutica. Pregava tanto o rompimento com a Igreja Católica quanto previa o fim do mundo. Já na década de 1960, Aladino Félix – ex-piloto na Segunda Guerra Mundial – combinava um discurso esotérico judaico com elementos da ufologia. Em 1968, liderou seus adeptos em atos terroristas que explodiram bombas em São Paulo. Tais ações foram, inclusive, usadas como motivo para edição do AI-5 durante a ditadura militar.

Carcaça do carro-bomba detonado em 19/04/1968 por grupo de Aladino Félix

Há, certamente, muitas nuances e diferenças em cada um desses casos. De qualquer forma, fica evidente como existe um imaginário messiânico que ronda o país e que emerge em determinados momentos. Não considero rentável considerar esses movimentos como aberrações ou um tipo de patologia social. Prefiro a avaliação de Pereira de Queiroz. A socióloga sugere que eles são reações de sociedades tradicionais em momentos de crise, de anomia (perda de regras sociais) e de mudanças estruturais. O apelo a valores religiosos não seriam, nesse sentido, demonstrações alienadas, mas uma forma de expressão da revolta, das angústias e de temores diante de um contexto caótico.

O que parece novo no cenário contemporâneo é a posição ocupada por quem é chamado de messias. Se ao longo da história, os líderes messiânicos estavam às margens do Estado, o quadro atual é diferente. Afinal, nem as pessoas que animam o novo messias, nem o atual presidente ocupam uma posição subalterna. Muito pelo contrário, são sujeitos detentores de poderes e interesses políticos e econômicos: pastores de grandes igrejas, ministros de estado, chefe do executivo…

Dessa forma, o discurso atual provavelmente não poderia ser enquadrado como um exemplo messiânico no sentido clássico, mas parece recorrer a esses referenciais de fé (que pairam pela sociedade) em prol de uma agenda política que disputa o sentido divino a partir do interior do próprio Estado brasileiro. Nos movimentos messiânicos de nossa história, os valores religiosos emergiam como expressão da revolta e da angústia popular e sinalizavam para o Estado a dificuldade de sobrevivência. Mas agora, o mesmo referencial parece ser mobilizado com outras intenções.

Políticos identificam os temores e as insatisfações da população (os problemas são, de fato, muitos) e sugerem a existência de um novo líder salvador. Parlamentares e sujeitos que fazem parte do Estado – ou estão próximos dele – capturam essas emoções e prometem uma solução: o próprio presidente seria a resposta aos problemas. Esse argumento serve, de um lado, como alavanca para erguer o capital político de Bolsonaro, e, de outro, retira dele a responsabilidade que o cargo lhe impõe. Afinal, se ele é o enviado de Deus, todas suas ações têm potencial divino e poderiam ficar livres da prestação de contas republicana. Não me interessa discutir quem é ou não messias – isso dependerá da fé de cada pessoa. Entretanto, considero prudente a atenção para as posições das pessoas que defendem essa associação messiânica, especialmente quando ocupam cargo estatal. Em nome de um messias é viável desrespeitar as instituições democráticas e a própria vida de cidadãs e cidadãos? Em última instância, a correlação religiosa guarda um perigo pois compromete o processo de responsabilização das ações que o cargo de presidente e chefe do executivo exige.  Por isso, é preciso muita  calma nas relações feitas entre fé e Estado em um país como o Brasil.

 

Agradeço Jacqueline Moraes Teixeira pelas conversas e sugestões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.