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Bernardo Machado

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80 tiros que colonizaram o futuro

Bernardo Machado

2016-04-20T19:07:20

16/04/2019 07h20

O trajeto para um chá de bebê foi interrompido pelo acionar repetido dos gatilhos, 80 vezes. O guarda-chuva ficou manchado de sangue após 2 tiros de fuzil acertarem seu dono – um trabalhador que aguardava a esposa e os filhos subirem o morro. E a promessa de comemoração juvenil do novo salário não se realizou, interrompida por uma saraivada de 50 balas. Nesses três casos – há muitos outros – os disparos eram "advertência" e as causas uma "confusão".

Quero chamar atenção justamente para esses dois aspectos: a "confusão" que gera uma "advertência". Aí ocorre uma associação direta entre alguns corpos e seus comportamentos: homens negros seriam potencialmente perigosos, afinal, teriam o "perfil" para atividades ilícitas. Por conta disso, seria possível, com as armas, antecipar qualquer averiguação. Esse procedimento, extremamente problemático e cruel, não é, porém, novo.

Ainda no século XIX, uma série de teorias – supostamente científicas – procuravam explicar as diferenças sociais com base em argumentos raciais. Por exemplo, a disciplina frenologia defendia que, uma vez feita a medição dos crânios humanos seria possível identificar o comportamento, o caráter, a personalidade e o grau de periculosidade das pessoas. Alguns cérebros, os oriundos de pessoas brancas, seriam maiores e melhores quando comparados àqueles vindos de pessoas negras. Curiosamente esses pesquisadores não sabiam explicar quando o contrário ocorria. Preferiam o silêncio e a negação para não descaracterizarem suas hipóteses.

Nessa mesma época, surgiu ainda outra corrente, dessa vez ligada ao mundo jurídico, cujo propósito era reconhecer o "criminoso" por sua anatomia: o tamanho de seu rosto e a distância de seus membros eram indícios do tipo de ilicitude a ser cometida. Aqui, os corpos negros já despontavam com alto potencial de risco. É preocupante notar como, nessas teorias, as diferenças humanas – físicas e sociais – seriam um produto direto da natureza. Autores traçavam paralelos entre os traços corporais e os comportamentos morais das pessoas e derivavam o temperamento de um indivíduo de sua origem racial. A eugenia, por consequência, se tornou uma prática política que previa a própria eliminação das raças tidas como "inferiores" e "perigosas" em prol do enaltecimento dos "tipos puros" e brancos.

Tais avaliações justificavam projetos imperialistas na virada do século XIX para o XX. Segundo essas previsões, grupos de interesse na Europa e nas Américas defendiam ser necessário conquistar territórios, fechar fronteiras, purificar raças e exterminar pessoas negras. O neocolonialismo definia o que os sujeitos, antes escravizados, poderiam falar, onde estavam autorizados a transitar e como deveriam se portar no espaço público. Qualquer postura incompatível com o previsto poderia levar a violentas punições. O projeto de poder invadiu muito mais do que as terras: atacou os modos de vida, as ideias, as memórias e os sonhos de futuro dessa população.

Embora essas teorias sejam distantes no tempo, alguns procedimentos contemporâneos se assemelham a elas. Não mais como uma máscara científica, mas sob um senso comum difuso que sugere existir um "perfil físico do criminoso". Talvez por isso, a juíza de Campinas (SP) tenha considerado relevante ressalvar quando condenou um réu acusado de latrocínio por não ter "estereótipo padrão de bandido, possuir pele, olhos e cabelos claros, não estando sujeito a ser facilmente confundido". Quem sabe por esse exato motivo, os corpos negros do músico Evaldo do Santos Rosa, do segurança Rodrigo Alexandre e dos cinco jovens trabalhadores – Robert de Souza Penha, Wesley Castro Rodrigues, Cleiton Corrêa de Souza e Carlos Eduardo da Silva de Souza – tenham causado "confusão". Seus corpos teriam "falado" antes de suas ações e trajetórias.

Quando nós assumimos existirem pessoas com "cara de bom moço" ou "cara de criminoso", estamos associando fenótipos a comportamentos e temperamentos. Nada mais injusto, cruel e impreciso. A cor da pele, a textura do cabelo e o formato do nariz são aspectos físicos que ganham significados socias, mas não determinam as escolhas das pessoas. Trata-se, por isso, de uma prática racista e perversa.

Mas há ainda uma última dimensão que considero pertinente sinalizar. Somos uma sociedade ansiosa. Desenvolvemos uma série de técnicas complexas e intricadas de antecipar do futuro: são modelos de previsão climática, algoritmos para avaliação de crescimento econômico, estatísticas para estimativa populacional… Queremos tornar o futuro palpável e compreensível. Em que isso se relaciona com essa associação singular entre corpos e comportamentos? Oras, parece que queremos antecipar o comportamento de alguém pelo tom de pele e pelos traços físicos. Como se o medo do possível crime justificasse a morte de alguns corpos.

Os tiros de "advertência", baseados em uma associação racial, agem como uma política que, tal como no neocolonialismo, extermina a vida e interrompe a esperança de alguns. Os gatilhos atualizam, nos dias de hoje, algumas práticas tão comuns de nossa história: a invasão das vidas, a conquista territorial e o extermínio do futuro. As famílias dos cidadãos mortos foram atravessadas por um zunido que não terá mais fim. Essas políticas, antes e agora, antecipam o que esses jovens homens negros poderiam ser ou não ser. Em nome de um futuro "purificado", colonizou-se seus destinos: enterrou-se seus corpos, seus sonhos e suas potencialidades. Ao fim, não podemos silenciar e tratar como "incidente" o que é sistêmico, violento e racista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Sobre o Blog

Cultura, relações sociais, diversidade, diferença e desigualdade são temas centrais do blog. A proposta é discutir noções e práticas contemporâneas que afetam nossas percepções de mundo utilizando a metodologia da antropologia.